O Bizarro

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Acervo Pessoal
"Antes eu tava bem mais seguro, quando eu tinha o tal do azar do meu lado. Quando as coisas aconteciam por carma, sabe, e não por essa desgraçada aleatoriedade que as coisas são. Antes, quando ao menos o inferno era algo certo, existia aquele sentimento agridoce de pertencimento.
Não que eu seja fraco, veja bem, foram 53 longos anos dentro desse buraco que eu nem sei se devo chamar de vida. Num bueiro onde sempre existiu uma clara noção do bem e uma clara noção do mau. Eu sempre fiz parte do segundo. Nunca fui muito de ter esse talento da sorte, sabe como é, né? Pois bem...
A coisa é que já fazem uns três dias que eu cruzei com essa maldita criatura andando pelo meio do estradão da decida da serra. Um bicho bizarro de estranho e que andava de costas, não era obra dessas terra, mas eu sabia que aquilo não tinha vindo do céu. Só tem uma lei da santa natureza que aquela criatura maldita obedecia e ela era a do medo. A coisa viu que eu parei assustado e sabia que ia partir pra cima que nem um loco, foi ai que ela atacou primeiro. Me atacou na forma dum berreiro.
Eu ainda não entendi bem como essa coisa aconteceu, mas sei que entenderei, porque tenho agora o como. Só que a coisa me despertou um entendimento de toda essa desgraça que na minha consciência caiu como um tiro na fuça. De início ela se explicou, era uma obra do acaso. Coisa que não existiria até existir. Foi ai que tudo mudou de cor e, santo deus meu, nada estava certo. Tudo era só essa desgraça, nada de errado, de certo, de incerto. Aquela coisa medonha me jogou uma praga de uma verdade que não existe em nenhuma razão.
Foi daí que eu deixei de ser azarado. E foi a partir daí que tudo fudeu."

Microcontos

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Poema das horas

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Colagem de Q-TA www.q-ta.com
4 horas
o breu, tua silhueta
5 horas
o cínico cheiro do arrependimento mete o pé na porta
6 horas
é dia, há mundo
7 horas
ah, me bate a impaciência
teu corpo vibra
tua perna [se mostra]
me consolo
presenteio-me com o divino perseguido a noite inteira
som dos pássaros
teu cheiro
7:30
meu olho para e encara
é um mundo que se adianta em ser mundo
é uma obra do acaso
que se ilude em planos
não sei se chega a dar 8 horas
meu café ainda é quente
8 horas
teus olhos estão vendados
o sonho ainda queima
9 horas
ouço rumores de almas arrebatadas
9:37
eu mesmo já não me sinto mais aqui
[apenas brinco de ser algo]
10 horas é a hora que o mundo acaba
tudo o que sobra
é o que sobra
11 horas
tu acordas,
escovas os dentes com a estranha sensação de que nada mais importa
as vezes chega a dar meio-dia
mas no geral chega a tarde e mata a matéria
e dá fim ao pesadelo.

Caixão do Billy

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Caixote Billy
eu sou significado
anoitecer da criança
temos só uma infância
que nem mais anda do meu lado
Encaixe o Billy
eu to só desesperança

Nova plataforma

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Atualmente estou publicando os textos na plataforma medium


Esporadicamente, tentarei atualizar as coisas por aqui

Obrigado

Mundo Cínico

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Foi tudo uma grande merda.
     Desde a espera até a esperança. Você veio como a primavera e eu como uma criança. Dispensado por um tempo dessa sabedoria poluída. Que faz sabermos que somos o que somos e que por tanto sempre nos ferimos. O mundo é apático para nós todos, mas eu vejo o meu e cada um o seu. E o estado deprimente ao qual me surpreendo é apenas uma síntese do que sou eu. O infindável finito de reações programáticas às quais sempre me surpreendo. É a arte de quando estou vivendo e é o que eu sinto quando sinto algo. Pois bem, o programa entrou em choque. Poderia ser evitado por uma certa falta de malícia, talvez todos devam sua parte nessa anarquia a qual agora todos temem se manter.
     Pois o tempo está acabando. E foi tudo uma grande merda. E saber que tudo o que foi feito está perdido é de um sentimento de injustiça e fracasso. Se apenas o bem queríamos, aonde perdemos o passo? Sei que amanhã acordarás em um mundo cínico. Esse que deixo a espreita, quando decido deitar ao seu lado. Você sabe que é dolorido ter fracassado, pois o terrível da culpa é não haver um lado errado. Cada vez mais o tempo passa, mesmo que até com o tempo você já tenha acabado. Mesmo que tudo tenha se diluído, em uma birra sem nome, em um anônimo sentimento de fim.
     Já fazem algumas horas que vivemos em um mundo cínico, onde ninguém mais se conhece. Onde só o que há de pior floresce, a alegria adoece e a verdade mente para algum lado. Me enraivece que a sua consciência lhe preserve. O barulho, que sei que tu percebes, é um protesto, desonesto, mas de desespero profundo. O desespero de alguém que pensa: vai ficar assim? Amanhã a culpa será minha. Não terei mais armas pra lutar. E o que me corrói é que eu tentei. Eu juro por um tudo e por todos, eu tentei. Por favor não me ofenda com palavras que machucam. Todo o menosprezo mata a melhor parte de mim, que é você.
     Por um longo tempo já é tarde. Já vivemos e habitamos o mundo cínico. A grande merda ficará até pensar que durará pra sempre. Eu te odeio por isso assim como você me odeia. E é por isso que você é tão estúpida, talvez até tanto quanto eu. Nos pegamos na busca de uma razão absoluta, mas por pouco tendemos a agredir aquilo que juramos amar. Bem feito para todos os casais escrotos. Bem feito a tudo que não possa ser simplificado, vira cada um pro lado, é tudo tão complicado. Você escolheu acordar no mundo cínico. Mas não esqueça, quando acordar verá que eu ainda estarei do seu lado.


A rua é dos que sentem ódio

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Nós devemos parar a beira da encruzilhada? Nós temos raiva! E a revolta nos trará de volta, enquanto aguardamos no ponto bélico da ação selvagem. Olho para trás e há uma fila de corredores, cheia de escritores e pensadores que se acorrentaram no conforto do microcosmos. Falam de amor, estão contemplativos. Sabem que tudo está perdido e se encarceraram em seus próprios casarões.

A rua agora é daqueles que sentem ódio. A noite é daqueles que gritam ao desafiador brilho de uma lua perseguidora e que queimam seus próprios corpos para jamais chagarem ao ponto de ousar se acostumar. O bairro está em chamas, os patrícios tentam, lá do alto, apagar com cuspe. Não olharemos para cima até que a estrutura queime, até que tudo desmorone e possamos olhá-los de frente. E quando finalmente, frente à frente, obrigados a nos encarar, verão em nossos olhos o ódio, que eles mesmos ousaram criar.


[12-10-2016]