O Bizarro

Acervo Pessoal
"Antes eu tava bem mais seguro, quando eu tinha o tal do azar do meu lado. Quando as coisas aconteciam por carma, sabe, e não por essa desgraçada aleatoriedade que as coisas são. Antes, quando ao menos o inferno era algo certo, existia aquele sentimento agridoce de pertencimento.
Não que eu seja fraco, veja bem, foram 53 longos anos dentro desse buraco que eu nem sei se devo chamar de vida. Num bueiro onde sempre existiu uma clara noção do bem e uma clara noção do mau. Eu sempre fiz parte do segundo. Nunca fui muito de ter esse talento da sorte, sabe como é, né? Pois bem...
A coisa é que já fazem uns três dias que eu cruzei com essa maldita criatura andando pelo meio do estradão da decida da serra. Um bicho bizarro de estranho e que andava de costas, não era obra dessas terra, mas eu sabia que aquilo não tinha vindo do céu. Só tem uma lei da santa natureza que aquela criatura maldita obedecia e ela era a do medo. A coisa viu que eu parei assustado e sabia que ia partir pra cima que nem um loco, foi ai que ela atacou primeiro. Me atacou na forma dum berreiro.
Eu ainda não entendi bem como essa coisa aconteceu, mas sei que entenderei, porque tenho agora o como. Só que a coisa me despertou um entendimento de toda essa desgraça que na minha consciência caiu como um tiro na fuça. De início ela se explicou, era uma obra do acaso. Coisa que não existiria até existir. Foi ai que tudo mudou de cor e, santo deus meu, nada estava certo. Tudo era só essa desgraça, nada de errado, de certo, de incerto. Aquela coisa medonha me jogou uma praga de uma verdade que não existe em nenhuma razão.
Foi daí que eu deixei de ser azarado. E foi a partir daí que tudo fudeu."

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