Vivo em paz ou livre

Nem a fome que me trouxe à abrir a geladeira era tão poderosa quanto sua luz interna radiante fazendo contraponto à uma manhã tão escura. Queria me lembrar que nem todos os começos devem ser iguais. Pois bem, penso nessa qualidade que até aqui me carrega. Ela é apenas uma, dentre tantas que são minhas fomes.
Até o ar já me consome. Congelo eu mesmo ao despir-me diante de um mundo que é feito de gelo. É o mesmo mundo, no entanto não o conheço. O mundo passa e não me olha e ambos fingimos que ninguém sabe. Há essa fome que canaliza aqui dentro, fome à qual chamo raiva. Crescia ao tempo que eu me sujeitava, enquanto eu emudecia. Ignorava o fato de que aquilo crescia e me consumia. Agora a sombra se fez na cidade. Há um mundo onde não há felicidade. Há um mundo aqui.
Mas ando sempre fechado e sempre me paro à pensar: vivo em paz, ou livre?
Por hora tudo o que eles veem é uma criatura acovardada. Levanta cedo, vai à padaria, sente na tristeza do dia tranquilidade conformada. Mas eu digo, mal sabem eles o dia. Talvez numa manhã como essa, fria. Ou um novo tempo em que o desespero de toda essa coisa oca me consuma ao ponto de finalmente soltar um berro. Emergindo todas essas fomes que me lembrarão meu verdadeiro nome para que todo esse lixo em que me comemoram comece a despencar. Rasgo meu contrato social e resgato minha assinatura.
É então que novamente penso: vivo em paz, ou livre?
Orem dias e noites. Pois a fina linha dessa covardia se alimenta do meu desespero e é ela, covardia, a única fome que me impede saciar às demais. E quando essa saciar-se, já não terá mais volta. Quando todas as outras fomes transformarem-se em revolta. Nem máquina nem pedra sobre pedra. Nem mais toda essa merda que hoje tranca todas as portas.
Devem me dar o devido reconhecimento. Eu sou só ódio por dentro. Indiferente me é o mundo que me priva a felicidade. Ando quieto pela cidade. Vou no ponto morto mas vou vivendo. Ai do dia em que todo esse veneno, entrar na minha estranha zona de conforto. Não queira estar por perto vendo. Não sou só eu, é um universo inteiro. Que ecoará no ar desestabilizando tudo. A família, o amor, a propriedade privada. A ideologia. Não vai restar mais nada. Vai-se embora tudo.

Mas não ainda. Apesar do nojo, continuo me cobrindo com esse manto. Quando penso: vivo em paz, ou livre? Me mantenho. Mas só por enquanto.

This entry was posted on sábado, 11 de junho de 2016 and is filed under ,,,. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response.

Comentários
0 Comentários

Leave a Reply