b h pereira
27-6-16
É o sol de uma
manhã de inverno. O mais nítido de todos os sóis que visitam a terra. Ilumina os
verdes campos que se expõem por entre os sombrios corredores do templo, cuja
arquitetura possibilita o sagrado contraponto entre a luz e a escuridão em
ambientes externos. Há penas dois sons nessa manhã, um de cada lado do
espectro. No luminoso jardim cantarolam os pássaros, nos escuros corredores agridem-se
firmes passos. Quatro passos opostos que almejam o encontro. Ao final da
jornada, dois corpos estão dispostos. Os catedráticos se olham e se
cumprimentam. Se falam e saem das sombras. Porém já entram no luminoso jardim
desesperançados. Sabem que tudo está acabado. Olham os pássaros que assobiam,
dedicam alguns poucos minutos ao cenário, admiram-no.
Há milhas dali,
milhões de plebeus pressionam os portões limítrofes da cidade sagrada. Sujos mortais
cheios de suor na cara. Cheios de medo e memória e imaginação e desejo. As
barreiras já estão fracas e eles ainda insistem em vir de todas as aldeias. Homens
cansados, que encontram força no cansaço e usam a força de seus braços para
empurrar seu principal pilar rumo à ladeira. Todos eles esperaram a vida
inteira para ver, da queda, um novo mundo se fundar.
O jovem
príncipe caminha atormentado. Já pensou em fugir se pudesse correr para algum
lado. Porém preso nessa ilha de fortes, sua única escolha é esconder-se em sua
bravura covarde e orar pela sua sorte. Atuar no papel que lhe é esperado por
toda aquela medonha sociedade, enquanto cultiva em si o medo dos únicos homens
que habitam a realidade. Medo de pessoas que nem sequer conhece de verdade. Com
medo do que está lá fora. Sabe muito bem o que lhe espera por de trás dos muros
que pouco mais aguentarão de pé. Sozinho no jardim do templo, encontra tempo
para evidenciar uma tomada de realidade. De início, repara que aquele desfile
de clero, que subsiste em sua propriedade, nada mais é que a guarda real da
manutenção de uma meta física supervalorizada. De um legitimo organismo
legitimador. O organismo que legitima o seu principado, um aparelho argumentativo
capaz de criar um estado. Um argumento, um discurso. Palavras.
Procura exasperado,
mas é apenas isso que encontra: palavras.
Ousou consagrar um nada argumentativo transformando-o em arma blasfemadora, e
por este até matava, ou melhor, mandava matar. Quantos já haviam sido mortos
por causa de uma abstração, que até – quem sabe – poderia ser alguma cosia –
por mais tola –, mas tendia a ser apenas um enorme nada.
É esse então o
aterrador momento da vida do príncipe, que de dentro do templo erguido em seu
nome, contempla a ruína de toda a dimensão à qual vivera sua vida, dentro
daquela sagrada vila, até que aquém daqueles limites, não sobre mais nada.
A guerra está
perdida, sabe o príncipe. Ali dentro, habita apenas um discurso opressor. Uma
moral que, por mais que tente impor-se, é apenas isso: um discurso, dúzias de
palavras. Enquanto lá fora, pressionando os portões que já não aguentarão mais,
esperam todos os homens do mundo.