Primeiro foi
o ranger da madeira. Depois o som das pesadas botas que pareciam despencar uma
tonelada de intimidação cada uma, mas como se não bastasse cada uma, vieram em
vinte e quatro. Dentro da casa tudo estava em breu, inibíamos a luz que vinha
de fora, como se carregasse em si a ameaça. Sentado de bruços estava eu, ao
lado de Madalena, minha santa e pura Madalena. Sentia o medo corroer o tênue
fio de sanidade que cabia em mim e que outrora me dava a seguridade de ser um
homem normal. Porém, quando a marcha das botas estourou e a luz, que enfim
conseguiu romper nossa negra camada de proteção, introduziu-nos à imagem
daqueles doze homens armados e imponentes diante de nossos frágeis e
desgraçados corpos encolhidos ao chão, algo de irreal aconteceu aqui dentro.
Surpreendia-me um novo fato: eu não sentia mais medo.
Eu não temia
mais por nada, também não me interessava mais nada. A casa foi tomada e também
nos tomaram. Até o destino da pobre Madalena, que logo foi agarrada ao braço
pela grosseira mão do mais baixo dos soldados, assustou-me, ao causar-me apenas
uma leve preocupação que quase confundia-se com mera curiosidade.
Não faço a
menor ideia do que podem querer fazer de mim, estou ainda à tentar entender a
magnitude do poder que eles tem em mãos. Doze homens armados diante de corpos
miúdos em um casebre no meio de um bosque.
Seu poderio
é admirável, ainda estão ali, apenas parados. E já conseguiram matar boa parte
do que eu conhecia de mim.