Agora aqui estou, gozando da quente
seguridade da tocaia.
A noite não avisou, ela caiu. Por precaução
inconsciente apertei o passo. O frio ordenava que andássemos de braços
cruzados, obediente eu abraçava meu tronco. As ruas estavam tão escuras quanto
iluminadas: não obedeciam padrão e esse caos suplantado penetrava minha alma
sensível. Adentrava meu ser, que é padronizado em pequenos pedaços.
É no caos das migalhas de pequenos padrões
que firma-se o exoesqueleto da minha moral, do meu lado mal e da minha obra. De
fora, já me basta uma luz solitária e a completa escuridão. É por isso que
delicio o fatídico momento em que adentro meu apartamento, acendo para logo
apagar a luz, ligo o computador. Estou seguro, seguro enquanto preso. Preso à
comodidade local da segurança de haver apenas um universo em todo esse espaço
vazio da escuridão. Apenas um único Aleph, iluminado pelo suporte que, ante sua
imperfeição, tenta captar quaisquer pequenas ondas de comunicação desse
universo solitário, mas talvez pensante, cercado de um infindável porém finito
vazio que separa todo esse país, esse planeta, essa galáxia, essa dimensão...
do restante da cidade.
Ouço, com o meu sentido que quebra paredes,
que a vida tal qual me concebe, se exerce lá fora. Objetiva-se de maneira
alheia a tudo e a todos, objetiva-se alheia a qualquer objetivo. Se vêm e se
cria. Eu paro e penso. Nenhuma vida que concebi segue a livre essência da vida
que me concebe, talvez um ou outro bravo espírito tenha acumulado força para me
comandar na hora de moldar seu esboço. Penso na curiosa possibilidade, de algum
antigo profeta lá fora, ter se relacionado em tamanha dialética com seu
criador, possivelmente nosso criador. Será que tal encontro, se consumado,
transpôs alguma verdade bruta, madura? Ou será que em todos os universos em que
se crie consciência, essa mesma, dada sua dependência na comunicação, seja
possível apenas através dos mistérios da retórica e da metalinguagem?
Talvez sejamos para sempre alienados de
nossa causa. Talvez sejamos eternos escravos do espaço infinito, amarrados a
finitude material. E é isso que há de mais perigoso lá fora. Mais perigoso que
a violência, cuja maquiagem caótica é superfície perto da correnteza que é a
causa e o efeito. Talvez nesse mundo nada tenha defeito. O que eu sei desde
cedo, é que tudo é padrão.
E no meio do padrão selvagem, da selva
petrificada de um cimento objetivado, da eletricidade descoberta e calculada,
uma consciência foge. Uma consciência que concebe existências inconstantes, que
se geram e degeneram e somem num instante. Uma consciência refugiada da selva
familiar, exilada numa escuridão acolhedora. Uma consciência vagando em um
infinito que só tem espaço para ela.
Sei que se agora eu for até a janela
poderei ser inspirado, porém também poderei ser atacado por uma realidade opaca
que salta os onze andares que me excluem por poucas horas desse jogo que
ninguém opta por jogar. Se eu for até lá irei me afogar em preocupações que não
cabem a essa nova e efervescente existência escura, que é delicada e
inconstante e feita de matéria invisível. Feita de meia taça de vinho, vomitada
pela náusea imperativa. Vomitada no campo das ideias e agora, como tal,
idealizada. É uma coisa rara, que não cabe ainda ao grotesco lado de fora. Tão
pequenina em experiência, essência e preciosidade. Ainda é fecunda e intrusa na
nossa realidade. Vive apenas no casulo, que tem uns três metros quadrados, é
escuro e úmido, limitado.
É o preço que pago, por construir a
liberdade. É o preço que pago, por aboli-la e idealizá-la em outra realidade. É
o preço que pago por encontrar a única brecha que o infinito nos deixou, colocar
o infinito dentro do infinito, berrar ao espaço o quão ele é abstrato. É o meu
preço almejar a liberdade me apegando na tocaia.