Um cometa cruza a
galáxia.
Sem saber e sem se
importar, Alma tropeça o salto fino numa poça dessas calçadas infestadas de
cidade grande. Era quase noite, beco. Batia o salto ao concreto como se na
marcha triunfal de uma estrela brilhante, ela sim era uma. Atrasos eram praxe,
ora, todos tinham que saber.
Sem saber... sem se
importar.
No ponto velho da
cidade.
Numa lanchonete, numa
mesa na calçada.
Albano, antropólogo,
café preto, meia colher de açúcar. Tudo indicava que sua até-então-atual companhia
fosse importante. Após sair, Albano referenciou-o apenas como “o Napoleão”. O
extinto café, pela borra, parecia um expresso com um terço de leite. Saiu com a
pressa dos que saem para salvar o mundo e ao entrar no carro, ressuscitou nos
lábios de um terceiro, que bem soube reparar.
-
Aquele homem é verde?
Para
tal indagação não houve resposta. Na verdade ninguém havia reparado no ex-sujeito
além do professor, e importuna-lo com o assunto era algo que estava fora da
ética de garçom. O professor terminou seu café em silêncio, na exata hora em
que uma ascendente estrela pornô desempenha seu majestoso papel e em outro espaço, mas no mesmo tempo, um cometa cruza a galáxia. Sem
saber e sem se importar. Ninguém sabe. Ninguém se importa.
-...pois
tudo que eu queria era essa torta.
-
E... Corta! – grita o excêntrico diretor do mais exótico filme adulto em
produção na indústria atualmente. Seu nome é Braulhio Arrodo, atual padrinho de
Alma, que se exalta em um foguete à poucos metros. Numa cena icônica, que no
acaso dos dias até chegará aos olhos do professor Albano, mas que por hora, não
lhe é sabido. Não lhe importa.
Um
garçom caminha pela cidade do final de tarde, no inconsciente, a rota certeira
do metrô. Eis que o consciente lhe para frente à um cartaz. Uma imagem que lhe
chama atenção. Lhe provoca um sentimento. Mas que sentimento será esse? O
garçom se perde no limbo ao tentar descrever. Eis que ao seu lado, um sujeito
magro, de terno e que aparentava estar aonde estava desde o início dos tempos,
analisando a imagem por cima dos óculos, observa:
-
É como mostrar sequencias trágicas nos dando um beliscão à cada morte, a gente
até sofre um pouco mais por elas, mas geralmente é quase nada.
Soava
tão estúpido quanto o estúpido fato daquela ser a representação perfeita do
vazio sentimental que irradiava no garçom aquela obra urbana. Embasbacado com a
aleatoriedade do dia que culminara na imagem e no comentário, o jovem garçom
Freves observa o não-tão-mais-velho desconhecido. Este então repara a companhia
do não-muito-mais-novo garçom. Sorri, acena e segue caminho.
Se
distanciam.
A
distância que agora se abre entre esses dois corpos, mais do que uma simulação
em diferente escala, é uma sátira cósmica da distância que o cometa está
tomando da nossa galáxia. E no vazio do espaço sem vida – ao menos dessa
galáxia – é bem mais provável que mais vida tenha notado a separação de dois
corpos que criticavam um painel do que o imenso evento envolvendo
distanciamento de corpos celestes. Ninguém soube, ninguém viu. Como se
importar?
Ainda
rumando a casa. Um jovem chamado Freves se espreguiça num banco de metrô. Alma
ouve música em silêncio no mesmo vagão. Eles vão morrer no mesmo dia. Eles não
se conhecem e nem se conheceram aqui. Não se conhecerão. Viverão suas vidas por
mais algumas décadas e no mesmo momento irão passar pela transição da vida para
o sei-lá-o-quê.
Mas
não foi a passagem do cometa que determinou isso. Nem o metrô, ou o professor
de antropologia, ou o crítico da rua. Simplesmente foi assim que aconteceu e é
assim que acontecerá. E se há uma força determinante nisso tudo, não é a força
que criou o cometa, os críticos, ou o
fez atravessar nossa galáxia, mas sim a força que, tendo consciência da
magnitude do evento espacial, fez com que vida racional nenhuma se desse conta do fato. É a força de uma piada.
Uma piada que não é gerida pela vida e pela razão, pelo contrário, as satiriza.
Ri delas porque não eram para terem dado certo, e não deram. Goza desse senso
de raridade e unicidade que só a racionalidade humana concebe. Uma piada cujas
versões geram versões, que geram outras versões, que geraram ciências e geraram
religiões. Piadas que ao tentarmos demais entender, esquecemos de rir.
- Sou filho da ignorância, e como tal,
sou o mais sábio de meu clã. Sou como colibri, que por ter cor acaba sendo
realeza ou plebe. Ascetismo ou liberdade. Asteca ou selvagem, ou outro
selvagem. Minto, como mentirei agora, a partir de agora. Minto no meu mantra
matinal. – Com essas palavras nosso conhecido esguio de terno se despede do espelho
do banheiro matinal, sem terno, nem óculos. Já sem críticas nem metáforas. Já
sem cometa. Apenas com um pouco da vida, e tudo que isso implica.
E
os espetáculos cósmicos continuam à embelezar o desconhecido desprovido da
singularidade obsoleta da vida. E a vida, tal qual conhecemos, continua. Com um
pouco para se ver, um pouco para se saber, pouco para se importar.
E
sem vermos. Sem sabermos. Sem nos ser dada a chance de nos importar. Alguém ri
em algum lugar.