Perpendicularidade

Vi assim, vou tentar contar como foi.

Foi numa calçada dessas da modernidade. Árvores e cimento. Homenagem ao velho novo mundo. Uma subida. Árvores na calçada para os carros passarem em paz. Uma subida de ladeira dessas tradicionais, porém ainda muito bela. E lá ia eu subindo a ladeira. No meio da jornada um prêmio; cheirosas orquídeas me relembraram o sentido do olfato da mais graciosa forma. Eu estava me sentindo ótimo parado ali mas, infelizmente, havia chegado o momento: eu tinha de atravessar a rua.
Foram mais alguns metros e eis que surge atrás de mim esse casal. Esse de que vos falo, num andar inspirado à mais bela primavera que se pode surgir num carrancudo estado de inverno. Formavam um belo casal. O rapaz vestia-se bem e andava ao passo dos que são firmes, enquanto sua parceira parecia mancar. Porém de um jeito gozado.
Ó, ela não estava mancando. Na verdade, era uma coreografia. E como era engraçada.
Caso perguntem quando foi que aconteceu, eu diria: à seguir.
Volto a olhar pra frente e ouço a moça falar uma palavra curiosa seguida de gargalhadas. Era do que o sol precisava para aparecer naquela que então se tornara uma tarde perfeita. Ela dançava em volta dele, dessas danças de quem só se dança quando se está despreocupado, e aproveitando. Despreocupado e aproveitando. Ali eu desconfiei.
Eis que em um cantarolar da mais fina classe da felicidade, novamente ela diz:
- Perpendicularidade.
Olha, sendo bem sincero, eu, por mim, nem precisava, mas para total aprovação de minha tese – à qual prometo que será apontada em breve – aparece um cidadão vestido a rigor social máximo num excêntrico meio de transporte. Para frente ao casal, desembarca e presenteia-os com sua locomoção: uma formosa bicicleta de dois acentos amarela.
Não diria exatamente que fora um presente. Na verdade, o bom homem o fizera como que concluindo um trabalho. Talvez um ciclo. Sem dizer nenhuma palavra, saiu andando. E quando meus olhos fugiram dos traços de seu caminho, este simplesmente sumiu. Talvez pela efetiva conclusão de sua missão. Talvez por concluir o seu destino, por ter deixado de ser útil, tenha deixado de ser.
Era tudo que eu precisava. A moça era eufórica por que entendia. Ou será que ela entendeu devido à euforia? É como num sonho, quando você se percebe que está sonhando. Quando se dá conta da própria ilusão, se torna dono dela, dono da situação. Perpendicularidade. Esse era o título dessa história e  de alguma forma que me escapa a percepção  ela sabia disso.
Perpendicularidade.
Pensei antes. Pensei durante. Pensei depois.
Pensei durante.
Perpendicularidade.
Tudo ocorrera em uma única ação.
Ela percebeu que tudo poderia,
Pois, ali sabia a sua razão.

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