O Santuário

Migrava um pequeno bando.
Aquela era uma realidade extremamente hostil. A floresta era um campo de guerra eterno onde os animais disputavam suas vidas no jogo da cadeia alimentar a partir do momento em que seus pobres corpos caíam no mundo – isso se não antes. E essa vida brutal ensinava muito mais ao instinto desses seres do que suas primitivas cabeças teriam capacidade de imaginar. Vence quem se adapta melhor. E parece que essas criaturas medianas migrantes se adaptaram como nenhum outro jamais conseguiu. Eles enfim haviam chego ao limite da existência mundana, a ascensão ao topo da cadeia alimentar seria uma questão de tempo.
Pararam na beira de uma cachoeira. Não conseguiriam notar, mas a algum tempo o ar e o som carregavam uma paz estranha. Algo absurdo se passava naquele lugar: Simplesmente não havia perigo nenhum.
Apenas as mais inofensivas criaturas dividiam com o reino vegetal aquele paraíso perdido. E tudo parecia seguir uma estranha ordem universal. Tudo parecia dar estranhamente certo. Ficaram ali. Com o tempo, começaram a sentir estranhas sensações. Sentiam-se preguiçosos e constantemente ameaçados, mesmo que seus cinco sentidos não alertassem perigo algum. Porém o lugar fornecia uma farta alimentação e o clima era sempre perfeito. E assim foram ficando.
Porém tal ordem da perfeição natural era de uma complexidade totalmente adversa à simplicidade rústica daquela sobrevivência. O santuário não fazia parte de cadeia alguma e por isso não precisava seguir regras. Logo, ela não se adaptou. Aquela não era a primeira vez que animais de alguma floresta vizinha entravam no santuário. Porem nunca uma espécie aguentou tanto aquele ligeiro mal estar, as sensações estranhas. Esse bando, no entanto, parecia se adaptar à esse sentimento hostil, o que trouxe aspectos interessantes àqueles animais. Agora, uma enorme desconfiança aflorava em seus instintos, criando uma nova cadeia no topo da cadeia alimentar. A lei do mais forte infectava o núcleo da irmandade tribal. O perigo abrigava a própria espécie. Isso trouxe algo totalmente inesperado à perfeita ordem do santuário: desordem.
Foi numa manhã de caça que as ondas sonoras – que já não apenas transmitiam a paz serena de um santuário imaculado – chegaram ao ápice espalhando os mais caóticos grunhidos de raiva e medo vindo do grupo que explorava as matas à procura de alimentos. Haviam ali encontrado algo perturbador. Seu instinto inevitavelmente associara àquilo a constante paranoia que sentiam. Ali estava a verdadeira ameaça. Intocável, impenetrável. Um portal em meio à rochedos, do outro lado do rio, que levava à uma outra parte da floresta, habitada por animais, parecidos com eles, mas pertencentes à um outro bando. Eles os encaravam.  Assim que começaram a berrar, uma escuridão inesperada se fez. Extremamente amedrontados, os caçadores correram como uma presa corre do predador. Como a muito tempo não corriam. Há muito que não precisavam.
Ao chegarem à cachoeira, em menos de uma hora, notaram que novamente era dia. Porém, sua primitiva existência era incapaz de especular sobre tal evento. A limitação da espécie também impossibilitava o grupo de comunicar a perturbadora descoberta ao restante do bando. Por serem os mais fortes, proibiam os demais de seguir para aquele caminho. Aos poucos, a ordem primitiva imposta no bando ofuscava a ordem perfeita e natural do santuário. O medo trouxe algo inteiramente novo para a existência mundana: Uma morte que não alimentou nem protegeu de outra morte deu origem ao assassinato. Outros logo em sequência vieram.
E novamente o santuário se manifestou. Trouxe consigo anos de escuridão que mudaram drasticamente a vida daquele bando. A comida ficara estritamente escassa. A grande maioria pereceu sem motivo aparente. Chegaram à beira da extinção enquanto todas as outras espécies animais e vegetais pareciam não ser afetados pelo breu. Cinco anos após o início do escuro, nenhum dos exploradores que outrora encontraram o portal havia sobrevivido. Mesmo assim, ninguém ousara atravessar a mata rumo às terras proibidas.
Foi quando sobrara apenas doze espécimes do bando, que a natureza habitante de cada ser desse planeta falou mais alto. O instinto de sobrevivência ímpar daquela espécie reaparecia em meio ao eterno mal estar do qual todos daquela geração carregavam desde o nascimento. Caminharam durante dias. Perdidos. Sem nunca ter saído dos limites do santuário. Apenas continuavam.
Enquanto andavam, o dia finalmente amanheceu. Resolveram então se manter no primeiro rio que encontrassem. Assim chegaram ao riacho das terras proibidas. Ficaram um pouco abaixo do ponto onde outrora fora visto o insano portal. Os dias trouxeram a paz que propiciou a volta daquele familiar sentimento. Um mês levou para que a incômoda paranóia os levasse misteriosamente ao portal. E lá estava o outro bando, do outro lado do rio, fitando cinco dos doze sobreviventes que ali se encontravam. A reação dessa vez foi silenciosa. Simplesmente fugiram mata adentro como, uma única vez, seus antepassados o fizeram. Logo se encontraram perdidos na cachoeira onde fora a primeira morada do bando. Era irreconhecível a luz do dia. O vento soprava uma estranha perturbação, o canto dos pássaros soava como tortura aos ouvidos daquelas cinco criaturas. Eis que surgem diante de seus olhos duas sombras que tocam o chão e tomam a forma do animal. Porém, o jeito com que se esticaram, distanciando cada vez mais suas patas superiores do chão, mostrou que não se tratava da mesma espécie. As sombras emitiram um som incrivelmente baixo e ao mesmo tempo doloroso aos ouvidos. Uma frequência aguda que justificou a ação de quatro daqueles cinco pobres animais perdidos; correr a distância máxima que conseguir.
A primeira sombra correu atrás deles logo em seguida. Tocou em cada um dos fugitivos que, ao receber o toque, caíram mortos na grama. A segunda encarava o quarto animal, que se mantinha diante dele e tentava, de maneira curiosa, se equilibrar o mais alto que conseguia. Em outros tempos, aquele seria o sentimento irradiador de toda arte. Aquilo era fascínio. Algo inteiramente novo e por tal tão forte que foi capaz de obstruir o medo do animal pelo desconhecido. Talvez agora viesse da outra parte o medo, pois por alguma razão a sombra não se moveu. Tocado pela primeira sombra que voltara, o corpo do equilibrista cai ao chão. Mais ruídos de alta frequência. Sombras se dissipam. Há algo à fazer.
De fato, a complexidade, num total desaforo da natureza, não se adaptou e pereceu frente ao rudimentar. A tosca ordem dos selvagens matou a perfeita ordem que regia aquele santuário desde o início dos tempos; e a força que foi capaz de proteger aquele reino por tantos e tantos milênios se encontrava agora ameaçada.
O ruído emitido pelas sombras era, na verdade, um diálogo:
– Por que eles não nos deixam em paz? Por que não vão embora como todos os outros animais? Olha à que ponto chegamos! – falou a primeira sombra.
– Silencio! Não vê que se nos comunicarmos eles podem nos achar? Talvez não tenhamos tanta sorte quanto da última vez. Talvez não encontremos outro planeta habitável, talvez nem sejamos capazes de sair desse. – respondeu a segunda sombra.
– Não seja tolo! Você não vê? Eles rastrearam nossa colisão com a ordem nativa desse planeta. A desgraça desses infelizes animais de matéria nos condenou. Eles já nos encontraram faz tempo.
(A sombra corre atrás dos fugitivos dando-lhes o toque da morte, vai até o último deles – o que carecia do medo – e toca-lhe as costas. A segunda sombra diz:)
– Eu tenho uma ideia! Sei como fugir daqui e nunca mais precisar fugir de novo. Não precisaremos mais nos preocupar se está tudo em ordem para nos camuflar. Pois se trata de um esconderijo em constante metamorfose. Um mundo minúsculo dentro de um mundo maior, porém ainda igualmente minúsculo. Em pouco tempo estaremos livres. E o melhor, sem precisar sair deste planeta.
As sombras então partiram em direção ao restante do bando que ainda se abrigava no rio das terras proibidas. Dos sete, cinco eram fêmeas e destas, três estavam prenhas. No meio da noite, as sombras adentraram no corpo de duas das grávidas, que berravam gemidos terríveis a noite inteira.
Como os caminhos rio acima haviam levado embora cinco dos doze sobreviventes do bando, nenhum dos sete restantes jamais teve a curiosidade de seguir a rota. Nem precisavam. Os caminhos rio abaixo começaram a ser explorados por outros animais, agora que o santuário não era mais protegido. As caçadas eram fartas e a carne abundante. Tudo que precisavam estava ao alcance quase imediato. Meses se passam e, numa única noite, as três fêmeas dão a luz.
Com o passar dos anos, os filhotes passam a desenvolver suas próprias personalidades. Os três aprenderam a caçar com o líder do bando. Apesar das tentativas, era inegável que havia algo de diferente com dois daqueles filhotes, já sem filiação. Um macho e uma fêmea. Demasiadamente observadores, demasiadamente parados. Faziam alguns gestos curiosos e enigmáticos mas que, aparentemente, não tinham uma finalidade compreensível. Aos poucos foram excluídos – ou se excluíram – do resto do grupo. Até que numa manhã, sem ninguém notar, partiram rio acima.
Nesse sentido as terras do santuário ainda se mostravam intocáveis à selva mundana. Como se algo ainda as tivesse resguardando. Caminharam um dia e uma noite e enfim chegaram ao portal. Mas, ao contrário de seus antepassados, o que eles viram no portal não foi um outro bando em outras terras, mas algo muito mais impressionante e incrível. Algo que definitivamente os separaria não só de todos do bando, mas de todas as criaturas do planeta até então. Ao olhar para o portal, eles viram o próprio reflexo.
No entanto, aquele foi um momento rápido e lúdico. Logo tiveram de seguir rio acima para procurar morada. Pouco a pouco, os animais das florestas foram descobrindo as terras do santuário. Gradativamente o misterioso silencio dava espaço à sinfonia selvagem. Antes de voltar – e novamente vencer – à cadeia alimentar, o casal preferiu migrar aos picos ainda virgens do santuário. Gozar das terras ainda livres do ordinário até não sobrar mais nenhuma. Antes do fim, colheram o último fruto da última macieira. Deram-se as mãos. Saíram juntos.



Era então o fim do santuário de Éden.

This entry was posted on segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015 and is filed under ,. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response.

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