Devaneios de N.S. Rubachov


Trecho de do diário de prisão do personagem N.S. Rubachov (O zero e o infinito) sobre a execução de um agrônomo que contrariava o líder estatal ao sustentar a opinião de que adubo de nitrato era superior ao carbonato de potássio.

“Pouco tempo atrás, o nosso principal agrônomo, B., foi executado com trinta de seus colaboradores porque sustentava a opinião de que o adubo artificial de nitrato era superior ao carbonato de potássio. O nº 1 é inteiramente pró carbonato de potássio; portanto B. e os outro trinta tinham de ser liquidados como sabotadores. Numa agricultura centralizada nacionalmente, a alternativa nitrato ou carbonato é de enorme importância, pode decidir o desfecho da próxima guerra. Se o nº 1 estava com a razão, a história o absolverá, e a execução dos trinta e um homens será uma simples ninharia. Se estava em erro...
É apenas isso que importava: quem objetivamente estava certo. Os moralistas à “cricket” agitam-se diante de um problema inteiramente diferente: estava B. subjetivamente de boa fé quando recomendou o nitrogênio? Se não estava, de acordo com a ética deles devia ser executado, ainda que posteriormente ficasse demonstrada a superioridade do nitrogênio. Se estava de boa fé, então devia ser absolvido e ter permissão de continuar fazendo a propaganda no nitrato, ainda que o país viesse a arruinar-se em consequência disso...
O que é, naturalmente, um cabal absurdo. Para nós a questão da boa fé subjetiva não tem interesse. Quem não tiver a razão deve pagar; quem tiver a razão será absolvido. Essa é a lei do credito histórico; era a nossa lei.”

“A história nos ensinou que frequentemente a mentira lhe serve melhor do que a verdade; por que o homem é espesso, e tem de ser conduzido pelo deserto durante quarenta anos e assistido em cada passo do seu desenvolvimento. E tem de ser levado pelo deserto com ameaças e promessas, com terrores imaginários e consolações imaginarias, a fim de que não se assente prematuramente para descansar e distrair-se adorando bezerros de ouro.” (...) “a historia me pôs onde estive; esgotei o credito que me concedeu; se estava com a razão, nada tenho a que me arrepender; se estava em erro, pagarei.”.

Koestler, Arthur. O zero e o infinito (Darkness at Noon). 2189 A. Reino Unido; GLOBO; 1940

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